Uma pesquisa feita na Suécia, entretanto, aponta que esses casos podem até acontecer, mas não são regra geral. A maioria das pessoas que ganham grandes prêmios em dinheiro de uma hora para outra continua com suas vidas normais, consumindo de forma prudente e tentando não se mostrar donas de uma conta de banco com um saldo estratosférico.
O estudo de Anna Hedenus, da Universidade de Gothenburg, diz que a crença em mudanças repentinas, dramáticas e radicais – especialmente na vida profissional – é algo que reflete os desejos imediatos de consumo dos indivíduos e o pensamento generalizado de que o trabalho é algo que somos obrigados a fazer e não algo que envolve prazer.
Mas o estudo de Hedenus, envolvendo mais de 420 ganhadores da loteria, procurou informações sobre como essas pessoas viam seus afazeres profissionais e as horas de lazer antes e depois de ganharem um grande prêmio. Além disso, a pesquisadora buscou informações sobre os seus hábitos de consumo e sobre modificações na noção de identidade desses ganhadores. E as escolhas que essas pessoas fizeram ajudaram Hedenus a compreender como as pessoas valorizam – ou elencam a importância – de certas facetas da vida cotidiana.
Melhor poupar para gastar depois
“Algumas pessoas entrevistadas diziam que o valor de um prêmio de loteria não era tanto dinheiro assim e que os valores não cobririam as necessidades delas pelo resto da vida. Mas essa afirmação mostra como as pessoas priorizam certas áreas da vida. Para esses indivíduos, a segurança de ter uma reserva monetária para o futuro era mais importante do que ter uma grande mudança por um período curto”, diz a pesquisadora.
Curiosamente, essa foi a resposta de boa parte dos ganhadores. Apenas uma pequena parte desses indivíduos usou o dinheiro para se dedicar menos tempo ao trabalho. Entretanto, o valor do prêmio também influenciava nessas escolhas.
Quanto maior a soma do dinheiro ganho, maior a possibilidade dessas pessoas agirem de forma inversa à maioria dos entrevistados, ou seja, a se dedicar menos ao trabalho. Curiosamente, essas pessoas não deixavam o trabalho, mas optavam por um estilo mais “tranquilo”, faltando mais e fazendo menos horas extras.
Para a pesquisadora, isso indica que o contato social, a estruturação de uma rotina diária e a sensação de satisfação com o que faziam como profissionais era importante para a construção da identidade dessas pessoas.
Consumir, mas sem mudar a própria identidade
Quanto ao consumo, os ganhadores de loterias tinham uma visão paradoxal sobre a questão. De um lado eles desejavam se tornar grandes consumidores de produtos e serviços. Mas ao mesmo tempo, a ideia de consumir os produtos errados ou de gastarem mais do que tinham e comprometer seu futuro econômico os preocupava.
Paralelo a isso, os entrevistados também tinham medo de que o consumo excessivo afetasse de alguma forma sua vida social e que as outras pessoas achassem que eles haviam mudado. O estilo de vida desses ganhadores e o ambiente social antes da sorte bater à porta era um fator decisivo para que esses indivíduos escolhessem o que fazer e como consumir após se tornarem “milionários”.
E se alguém tem dúvida sobre se o dinheiro trouxe felicidade a essas pessoas, Hedenus afirma que sim. O sentimento de felicidade e o aumento da sensação de segurança, liberdade e independência que o dinheiro traz são indicados como algo bastante positivo pelos sortudos ganhadores da loteria.
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com informações da University of Gothenburg