


'Estranho olhar esta casa vazia... Mesmo depois de tudo! Sem móveis nem
cortinas; as paredes, agora brancas, são como folhas de papel que pedem
para ser preenchidas. Me inspiram a escrever minha história. Parte dela
se passou aqui! Se você só acredita no material, no físico e palpável,
não se dê ao trabalho de lê-la. Só prossiga se, como eu, acreditar que o
mundo é muito maior do que compreendemos e o amor pode ir além do
"normal". Aí, talvez, você entenda como me sinto e, quem sabe, até tenha
passado por isso antes - e só não contou por receio de parecer maluca.
Pois bem: não tenho esse medo!
Meu nome é Shirley, e hoje eu vou te contar a minha história, ela começa no
friorento junho de 1995. Quando eu acabara de completar 15 anos e estreava meu
lindo casaco de lã rosa na escola. Aproveitei o intervalo para exibi-lo.
Em meio ao animado papo com as meninas, notei um gato me olhando lá do
outro lado do ginásio. Nunca vira aquele moço alto, magro, de cabelos
cacheados. Cercado de colegas, parecia se divertir muito. "Shirley, viu
fantasma?!", brincou uma das meninas. Sorri, envergonhada, e todas
notaram o foco da minha atenção. "Ah, está de olho no Ricardo... Acabou
de ser transferido para cá. A prima dele estuda comigo, me contou tudo",
entregou Laudecir, "fofoqueira número um" do colégio.
O
dito-cujo também notou meu interesse. Fez cara de sem-vergonha e me deu a
maior secada. Tremi feito vara verde. Disse algo aos amigos e veio na
minha direção. "Lau, o que eu faço?!", sussurrei, em pânico. Minhas
amigas piscaram umas para as outras. Decidi sair correndo direto para a
sala de aula vazia. Sentei na minha carteira, o coração saltando pela
boca. Jamais sentira nada parecido.
O sinal bateu, todos
voltaram para a classe. Laudecir chegou bronqueada: "Sua maluca! O
bonitão veio falar com você e a senhorita fugiu feito o diabo da cruz.
Pirou?". Eu não sabia onde enfiar a cabeça. Ainda era virgem e
inexperiente com rapazes. Aquela situação me fez virar uma medrosa de
carteirinha. "Ah, ele deixou isso aqui...", murmurou Nina, esticando um
bilhetinho para mim. Corada, me afastei delas para ler o papel. "Da
próxima vez, não precisa fugir: eu não mordo. Do seu amigo, Ricardo".

Após
uma noite maldormida, tomei a decisão: iria falar com ele. Mesmo com
medo de ganhar fama de vagabunda, iria ver o que ele queria. Sentia-me
determinada e nada me impediria. O máximo que poderia acontecer era o
cara só querer amizade. E eu entenderia. Quer dizer, ACHO que
compreenderia.
Pensando em tudo, menos em estudar, caprichei na
maquiagem ao ir para a escola. A professora de matemática me chamou a
atenção umas seis vezes: "Você não está nem aí hoje, hein?!". Minhas
amigas riam, pois sabiam onde estava com a cabeça.
Finalmente,
chegou o intervalo. Disparei para a cantina. Pedi um lanche e um suco e
fiquei fazendo hora. Discretamente, olhava para os arredores, procurando
meu príncipe encantado. E não demorou para que eu o enxergasse:
abraçado a uma loira peituda, metida numa saia que mal cabia nela e,
ainda por cima, com a maior cara de safada. Na certa, eu havia chegado
tarde demais!
Voltei chorando para a sala de aula. "Homens são todos iguais. E as
vagabundas também!", resmunguei. Nisso, me dei conta que estava sendo
observada. "Oi", disse Ricardo. Tomei o maior susto, mas encarei-o.
Brava. "Shirley, corri atrás de você, mas acho que não percebeu...",
continuou. "Olá, mas quem é você?", interrompi, fingindo nunca tê-lo
notado na vida. Ele sabia que eu estava mentindo. Pelo seu olhar, tive
certeza que Ricardo tinha noção de quanto eu o desejava. "Bem, sou o
cara com quem você trocou uns olhares outro dia. E, só para esclarecer, a
garota loira que estava comigo é minha prima. Ela estuda na sala ao
lado!", disse, como se estivesse prestando contas. De fato, estava.
Senti-me,
ao mesmo tempo, aliviada e envergonhada. A moça era da família dele,
não uma namoradinha. Mesmo assim, não pude dar o braço a torcer. "Que
garota?! Nem vi...", murmurei, já esboçando um sorriso sem-graça.
Desfeito o mal-entendido, começamos a papear. Ele disse que trabalhava
na oficina de carros do pai; adorava jogar futebol. Eu contei que
ajudava mamãe a fazer salgados e que amava dançar e ouvir música
sertaneja, daquelas bem românticas. O súbito sinal da aula cortou nosso
clima.
"Bem, a gente se vê no intervalo amanhã. Pode ser?",
sugeriu ele, já bem à vontade comigo. Abri um sorrisão e o moço entendeu
a resposta. Laudecir, que observava tudo da porta, grudou em mim assim
que Ricardo se foi. "Shirley, me conte tudo...", sussurrou curiosa.
Relatei os acontecimentos e minha amiga ficou mais maluca. Parecia até
que era ela quem estava flertando com o gato. "Lau, ele é lindo,
inteligente, trabalhador e carinhoso. Mas sou muito desconfiada. Por
isso, irei com toda a calma", ponderei, tentando parecer madura. Por
dentro, meu discurso era outro: queria assumir o quanto estava morrendo
de vontade de beijar aquele rapaz na boca e de me entregar para ele.
As
aulas de biologia, inglês e matemática do dia seguinte demoraram uma
eternidade. A todo o momento eu olhava para o relógio, ansiosa pelo
intervalo. Finalmente, o estridente sinal tocou. Corri para o pátio como
se fugisse de alguém. Na verdade, estava: tentava escapar da minha
solidão de adolescente tímida. Naquele momento, enxergava em Ricardo um
portal para que eu pudesse crescer e amar como todas as mulheres fazem.
Com
todos esses pensamentos malucos na cabeça, surgi na frente dele. "Você
está uma gata", disse, assim que me viu. Sorri. Ele retribuiu. Notei que
algo estava errado. "Tem um pouco de batom nos seus dentes...",
brincou. Senti o rosto queimar de tão vermelha que fiquei, de vergonha.
Havia exagerado na maquiagem para impressioná-lo sem saber usá-la
direito. "Posso limpar para você?", insistiu, erguendo meu queixo
cabisbaixo com seus dedos. Eu não entendi bem a pergunta, mas disse sim,
sem pensar muito. O gato se aproximou e me deu nosso primeiro beijo.
Senti sua língua passar pela minha boca inteira, inclusive pelos meus
dentes. Quando nos separamos não existia mais nenhum resquício de batom
em meus dentes. E não havia mais nenhum vestígio de solidão em meu
coração.
Eu e Ricardo passamos a namorar. Andávamos de mãos dadas pelo colégio,
trocávamos beijos no pátio... Foi assim durante um ano. "Posso ir à sua
casa conhecer seus pais?", perguntou ele, um dia. Ri, nervosa. "Será que
vai pedir minha mão?", pensei. Como se lesse pensamento, o gato
prosseguiu: "Acho legal me conhecerem para abençoar nosso namoro...".
Meus
pais não sabiam que eu saía com ele. Por ser o primeiro homem da minha
vida, tinha o maior medo de revelar o caso e pôr tudo a perder.
Consultei Laudecir e outras colegas. "Vocês nem transaram ainda! Que mal
há em contar, Shirley?", avaliou uma delas.
Decidi falar com
meus pais. Pelo jeito que me sentia, parecia que estava prestes a
revelar que era uma criminosa. "Estou namorando...", murmurei na mesa de
jantar. Papai me lançou um olhar sério; mamãe apenas suspirou. Ela já
devia ter passado por isso em algum momento da vida dela. "Esse moço é
de família?", perguntou a dona da casa. Fiz que sim com a cabeça. Após
muito questionamento, mamãe fez a pergunta derradeira, enquanto
lavávamos a louça: "Você ainda é virgem?". Fiquei vermelha e contei a
verdade. "Sim, a gente só se beija!".
Quando falei para Ricardo
que estava autorizado a conhecer minha família, ele me pareceu mesmo
emocionado. "Puxa, que bom que irei na casa da mulher da minha vida e da
futura mãe dos meus filhos..." No sábado seguinte, chegou com flores e
uma garrafa de uísque na mão. Lógico que todos o adoraram! Por que não
iriam gostar de uma criatura tão doce como o meu amado?
Nosso
terceiro ano de namoro coincidiu com meu aniversário de 18 anos. Muuuita
coisa havia acontecido, menos aquilo que mamãe tanto temia. Como
recompensa, meus pais permitiram que nós viajássemos juntos. Com a
companhia das minhas amigas, claro. Já no primeiro dia, nós dois
decidimos fazer uma caminhada pelo campo que rodeava o sítio onde
estávamos. Assim que vimos uma linda cachoeira, ele olhou para mim.
"Tudo bem se eu der um mergulho?", perguntou. Eu sorri. Então, ele tirou
a roupa e ficou só de sunga. Ou seja, o danado já previa que aquilo
fosse acontecer.
"Não trouxe biquíni...", disse, envergonhada.
"Eu não vou achar nada ruim se tiver que vê-la de lingerie!", devolveu o
sem-vergonha. Meus hormônios falaram mais alto que minha consciência e,
por fim, me juntei a ele. Dentro da água fria, nós nos abraçamos.
Ricardo estava tão excitado que a sunga mal podia comportar seu enorme
desejo.(rs.rs...)Entre beijos molhados e carícias, deixei que me possuísse ali,
na cachoeira. Não senti dor nem pudor. Parecia que havia me preparado a
vida toda para aquele momento.
Assim que saímos da água, ele me
entregou um anel de prata. "Ganhei uma gorjeta por causa de uma moto que
consertei e resolvi comprar isto para você", disse. Enquanto eu chorava
de emoção, vi um filme passar pela minha cabeça: casamento, filhos e
uma velhice feliz ao lado dele. Tudo parecia tão perfeito que tinha medo
de estar apenas sonhando. E - ah, as ironias da vida - eu talvez
estivesse mesmo...
Em três anos nos casamos. A cerimônia foi muito simples, no sítio de um
amigo de Ricardo. Enquanto fazíamos os votos de "felizes para sempre",
pássaros gorjeavam e um delicioso vento soprava. Tudo como sempre
sonháramos. Assim que o padre nos declarou marido e mulher, trocamos
beijos ardentes, sob aplausos de familiares e colegas.
"Shirley,
este é o dia mais importante da minha vida!", sussurrou Ricardo no meio
de toda aquela farra. Eu, claro, disse o mesmo e pensei no convidado
mais importante da noite que, curiosamente, não estava ao alcance dos
nossos olhos, mas, sim, dentro de mim. Sim, eu estava grávida de um mês.
"Nosso filho poderá contar aos amiguinhos que esteve no casório dos
pais", brincou meu marido.
Só havia revelado a novidade para
meus pais e para Laudecir. Queria deixar a gravidez evoluir direitinho
antes de espalhar a boa-nova. "Quando este casal tão abençoado terá
herdeiros?", quis saber uma tia. Sorri e alisei discretamente a barriga.
"Quando Deus quiser, tia", devolvi sem ela perceber que eu já havia lhe
dado a resposta.
Quando já estava no terceiro mês de gestação,
contei para todo mundo. Ricardo, orgulhoso como nunca, ficou ainda mais
exultante ao descobrir, no exame de ultrassom, que seria um menino. "O
Ricardinho está chegando...", falava a todo o momento. Parecia uma
criança, tamanha animação. "Assim que ele nascer, vamos sair desse
apartamento e nos mudar para uma casa", anunciou, certa vez. Ele já não
era mais funcionário da oficina de seu pai, mas o dono do
estabelecimento. Trabalhador até não poder mais, havia conseguido
melhorar os negócios da família e, graças a Deus, agora tinha condições
de nos dar uma vida confortável e segura.
No quinto mês de
gravidez, sua profecia se concretizou. Passamos a morar numa enorme casa
de dois quartos. Ele mesmo pintou de azul o cantinho do nosso filho. "O
moleque vai dormir num quarto bem bonito", falou, ao terminar sua
obra-prima. Nos meses seguintes, vivi emoções inesquecíveis com meu
homem: quase todas as noites nos amávamos e trocávamos juras de amor.
Fizemos muitos jantares românticos e planos para o futuro. Um deles
incluía até "encomendar" uma irmãzinha para Ricardinho.
No
oitavo mês de gestação decidimos fazer uma viagem romântica para a
praia. "Será a nossa última chance de ficar a sós antes de o bebê
chegar", comentou meu amado, enquanto guardava a bagagem no carro.
Durante o percurso, no meio da sinuosa serra, colocou para tocar As
Flores do Jardim da Nossa Casa, de Roberto Carlos, minha canção
favorita.
Sempre que eu estava mexendo na roseira de nosso
quintal, ele tocava essa música para mim. Eu me emocionei. Ele também.
Gentil, levou suas mãos aos meus olhos para enxugar minhas lágrimas e
inclinou seu rosto para me dar um beijo. Derrepente! Um caminhão que vinha na
direção contrária da pista não notou que havia saído de sua faixa. Antes
que meus lábios tocassem os de Ricardo, ele se chocou em cheio com o nosso
veículo, nos atirando para um barranco. Eu sobrevivi. Mas, tanto meu
bebê como meu amor, não!

Tique-taque, vrum, tique-taque, vrum... Aqueles ruídos estranhos
ressoavam sem parar nos meus ouvidos. De onde vinham? Onde eu estava?
Sentia meu corpo dolorido, fraco. Tentei abrir os olhos, mas não
consegui. Voltei a dormir profundamente. Não sei quanto tempo se passou
até que eu acordasse.
"Shirley, você está bem?", foi a primeira
coisa que eu escutei. Mamãe estava ao lado da minha cama, no hospital.
Acariciava minhas mãos, cheias de arranhões e hematomas. Só tive forças
para murmurar: "Cadê o Ricardo?!". Ela olhou para meu pai, do outro lado
do leito, e abaixou a cabeça. Ainda em estado de choque, levei as mãos
até minha barriga. Mamãe abaixou a cabeça novamente.
Naquele
instante, preferi morrer. Não enxerguei dentro de mim nenhum sentido
para continuar viva. As duas coisas que mais amava haviam partido: meu
marido e meu bebê. De uma hora para outra, a mulher feliz e prestes a
ter uma família havia se tornado uma pessoa solitária e vazia. Laudecir,
que logo reconheci no quarto, aproximou um lenço dos meus olhos para
enxugar minhas lágrimas de dor. Encarei-a por algum tempo. Então, senti
as pálpebras pesarem novamente. O sedativo estava fazendo efeito.
Até
o dia em que recebi alta, não consegui pronunciar uma palavra. Não
tinha vontade. Só me alimentava porque meus pais insistiam. Do
contrário, teria virado um vegetal. Cheia de olheiras e com as feridas
mais profundas que um coração pode suportar, deixei o hospital. Em vez
de ir para minha casa, segui para a de papai e mamãe. Lá, fiquei duas
semanas deitada, chorando e querendo ter morrido também.
Certa
noite, estava no meu quarto de solteira, apática e triste, quando mamãe
entrou. Ela pegou minha mão: "Filha, você está viva e precisa agradecer
por isso. Não se entregue, Shirley". Encontrei nela mais do que apenas
uma mãe, mas uma amiga - aliás, a melhor de todas. Nós nos abraçamos e
choramos. Ela tinha razão: eu deveria reagir.
Minha primeira
atitude foi voltar para casa. Preferi ir sozinha. Ao olhá-la do lado de
fora, parecia que tudo estava igual. O jardim bem cuidado, a pintura
recente impecável e o ar gostoso da vizinhança. Mas aquilo só me deixava
pior. Ao abrir a porta, senti meu corpo tremer. Observei lentamente
cada cômodo e caminhei até o quarto de Ricardinho, onde desabei num
choro profundo. Peguei o ursinho de pelúcia que havia comprado para ele e
comecei a niná-lo, exatamente como gostaria de ter feito com meu
herdeiro.
Arrastei-me até meu quarto. Abri o guarda-roupa de
Ricardo e comecei a acariciar suas roupas. Senti o cheiro do meu homem
em cada peça, como se ele ainda estivesse ali, vivo. De repente, me vi
sozinha, no meio de uma casa ampla e com o coração apertado. Abraçada ao
brinquedo do meu filho e às roupas do meu marido, não enxergava como
seria meu dia seguinte. Mesmo assim, decidi voltar a morar lá e
enfrentar a realidade. E, por mais estranho que pareça, ao tomar essa
decisão, ouvi uma voz masculina dizer "estarei sempre ao seu lado", num
timbre que me era tão familiar!
Após sentir a presença de Ricardo na casa, eu me senti diferente. Era
como se ainda estivesse ali, vivo! "Shirley, você está maluca. Ele
morreu, tudo acabou...", murmurava para mim mesma, tentando não pirar.
Ainda assim, iniciei um ritual diário: sempre que estava em casa,
prestava atenção a qualquer ruído na esperança de meu homem voltar a se
comunicar comigo. "Amor, onde você está?!", gritei muitas vezes no auge
de minha solidão.
Até que, numa noite de terça-feira, meu pedido
foi atendido. Mas, em vez de ouvir a voz do meu marido, senti o toque
de suas mãos em meus braços, exatamente como ele costumava fazer. Fiquei
arrepiada e zonza. "Meu amor...", sussurrei, torcendo para que aquele
momento se eternizasse. Um vento frio soprou da janela da sala.
"Shirley, você precisa seguir a sua vida...". Ao ouvir aquela frase,
comecei a chorar. "Ricardo, não consigo. Não sem você! Por favor,
volte!", respondi olhando ao redor, na expectativa de vê-lo.
De
repente, o vento parou. A voz sumiu. O arrepio cessou. "Não me
abandone...", choraminguei. No dia seguinte, fui ver mamãe. Precisava
relatar o que estava acontecendo. Ela ouviu com paciência. Enquanto eu
tomava um copo de água com açúcar, fez de tudo para tranquilizar a filha
aflita. "Está na hora de deixá-lo em paz. Ricardo já morreu, mas você
não! Reconstrua sua vida, Shirley".
Mais uma vez, ela tinha
razão. Mas quando você está sofrendo demais, fica surda e não ouve esses
conselhos importantes. Foi o que aconteceu comigo. Voltei para casa e
continuei chamando pelo nome do meu marido. Passei a madrugada inteira
assim, feito maluca. "Deus, por que você permitiu que isso acontecesse
comigo?! Por quê?!", repetia.
Passei a não sair de casa e a
comer pouco. No fundo, queria morrer, acabar logo com o sofrimento e,
sobretudo, reencontrar meu grande amor no plano espiritual. Quando ouvi o
toque da campainha naquela manhã chuvosa de sexta-feira, mal tive
forças para levantar da cama e ir até a janela. Uma moça com roupas
puídas e cabelos desgrenhados estava ao portão. "Bom-dia. A senhora pode
ajudar com alguma comida para meus filhos?, perguntou. Fiquei olhando
para aquela família carente. Como se acordasse de uma hipnose, pedi um
minuto e fui até a cozinha.
Quando entreguei os mantimentos, vi
nos olhinhos daqueles pequenos um brilho de agradecimento. Eles poderiam
ser meus filhos. Mas não eram. E aquela mulher, apesar de viver em uma
condição miserável, estava lutando para sustentá-los, mantê-los vivos.
Todos me agradeceram e partiram.
Ao entrar, eu me senti
estranha. Como se algo tivesse mudado dentro de mim - e mudado para
muito melhor. Até mesmo a casa parecia mais iluminada, arejada. Abri
todas as janelas e faxinei cômodo por cômodo. Eu havia ajudado outras
pessoas. Era hora de me ajudar também. Se aquela moça lutava tanto pela
vida dela e de seus filhos, não era justo que eu me entregasse. A voz
familiar que ouvi naquela noite me disse que eu estava no caminho certo.
E, dessa vez, não chorei ao escutá-la. Pelo contrário, me senti alegre,
de de volta à vida.
Deixei a casa dos meus pais e voltei a morar no meu cantinho. Nas
primeiras noites, confesso, ainda me sentia só. Às vezes, caminhava
pelos cômodos na esperança de ver ou ouvir meu marido. Mas não me sentia
frustrada por não fazer contato algum. Pelo contrário: no fundo, sabia
que ele devia estar em outro lugar, feliz por ver que eu, finalmente,
seguia meu próprio caminho.
Assim, dia após dia, passei a mudar
meu comportamento. Pintei a casa, troquei os móveis de lugar e joguei
fora tudo o que não me servia mais. A única coisa em que não mexi foi no
enorme porta-retratos da sala. Na foto, Ricardo e eu fazíamos pose num
passeio pelo parque. O sorriso estampado em nossos rostos denunciava o
quanto nos amávamos. Eu jamais me desfaria daquele momento tão
importante de nossas vidas. No entanto, prometi a mim mesma que não
passaria a eternidade olhando para aquela imagem como se fosse minha
única chance de felicidade.
No trabalho, meus colegas também
notaram que eu estava diferente. Aos poucos, voltava a ser a mesma
Shirley de sempre. Por precaução, todos evitavam qualquer tipo de
comentário sobre maridos e namorados perto de mim. "Menina, nós vamos a
uma festa no sábado. Não quer ir com a gente?", perguntou-me Samara, uma
amiga do escritório. Festas? Eu já nem sabia o que era uma festa... De
qualquer forma, antes de recusar o convite, pedi um dia para pensar.
À
noite, em casa, fiquei olhando para o retrato. "Ricardo, o que você
acha de eu me divertir um pouco?", murmurei. De repente, senti um
arrepio na nuca. "É hora de você seguir adiante...", ouvi. Era a voz
dele. Eu sabia. Uma lágrima escorreu em meu rosto. "E é hora de eu
seguir o meu caminho", concluiu.
Comecei a chorar de verdade,
mas não de tristeza. Pela primeira vez em muito tempo, derramei lágrimas
de felicidade. Eu sabia que era o momento de libertar Ricardo e de me
libertar. Decidi ir à tal festa com o pessoal do trabalho no fim de
semana.
No começo, ao ver tanta gente, eu me senti um pouco de
lado. Mas, aos poucos,meus colegas me ajudaram a interagir e logo
comecei a me divertir também. A música estava muito boa e os comes e
bebes também. Encontrei pessoas que não conhecia e troquei muitas ideias
com elas. Vez ou outra, notava algum homem me olhando. "Menina, você
faz sucesso com a ala masculina, viu?", brincou uma amiga. Sorri
amarelo, mas gostei do comentário. Ele fazia eu me sentir viva!
Passei
a sair muito mais depois daquela festa. Voltei a ir ao cinema e
frequentar reuniões sociais. Meu círculo de amizades se multiplicou.
Descobri coisas novas e me interessei por muitas delas. Também comecei,
discretamente, a aceitar os flertes que recebia. De vez em quando,
retribuía os olhares de quem se interessava por mim. Não tinha pressa de
nada. Eu só queria viver e ser feliz.
Cada vez que chegava em
casa e via meu retrato com Ricardo sabia o que o sorriso dele na foto
significava: que estava muito contente por eu ter seguido minha vida
para, quem sabe, encontrá-lo mais adiante e ficarmos juntos para
sempre.'
||THE END||